Capitulo 55

Entretanto o tempo é realmente como dizia o Einstein muito relativo. Relativíssimo, digo eu, porque o que é virar de página para uns é muito tempo para outros. E quando se tem uma filha recém-nascida e os restos de vinte notas de quinhentos escudos na mão, e já se deu uma nota à Júlia e outra ao Dr. Zoio e outra ao farmacêutico o tempo deixa de ser relativo mas absoluto e o referencial, absoluto também, é a quantidade dinheiro que nos resta. Parece que há uma formula qualquer que tem em conta os trocos e cobres e notas e que multiplicado pelo quadrado de qualquer coisa e dividido por uma constante dá um valor, aproximado é certo, do tempo que nos resta até nos termos que por a bulir, como se diz no Porto.

Para Maria da graça, ilustrada apenas relembremos pela escola primária da Sé, na cidade do Porto, durante os anos sessenta, tais altas matemáticas eram inacessíveis e desnecessárias. Bastava-lhe contar o dinheiro que lhe restava, calcular mental e rapidamente as despesas correntes e futuras, ver a cara da Júlia ansiosa por nova nota de quinhentos escudos, o apetite voraz da filha e o preço dos géneros para chegar ao q.e.d muito rapidamente. Ou arranjava dinheiro rapidamente ou estava tramada. Dito isto num dia em que não lhe apetecia dizer palavrões ou, pior, censurada pelo autor.

 

As alternativas não eram muitas. Servir estava posto de lado. Ninguém queria uma criada com filhos. Empregadas externas eram raras nesses tempos. Outro emprego ninguém lho dava, ou se davam pagavam tão pouco que não dava para sustentar filha, mãe e alojamento. Júlia entretanto rondava-a por nova nota de quinhentos escudos.

 

Não a julguemos. Os tempos eram difíceis, como sempre o são mesmo para os ricos, imagine-se agora para os pobres em tempos em que não havia segurança social, televisão a cores e hospitais gratuitos. Era cada um por si e ser amiguinho é bonito mas no final, não se precate a gente e acaba no asilo das velhas, sem eira nem beira, sem ninguém que nos visite e a comer um caldo que nem os cães podem comer. Que isto a minha segurança é nula. O meu homem, se assim lhe posso chamar, ao bancário que me mantém é casado e se pensão houver – que penso que os bancários tem – ou herança é para a mulher. Eu fico a chuchar no dedo. É certo que nestes anitos fiquei com algo de meu. Uns brincos agora, uns certificados de aforro acolá – os quinhentos escudos da Graça lá estão a render – e até um dinheirito no Montepio Geral para uma aflição. Agora que não posso sustentar mãe e filha isso não posso. Fora eu rica.

 

Era de facto urgente encontrar uma solução. Nos tempos actuais diríamos que Maria da Graça deveria ser pró activa e não reactiva na resolução do seu problema. Naquela época pensou Maria da Graça que tinha que se desemerdar, e rapidamente, senão estava fodida. Outros tempos e outra linguagem.

 

Se a ilustríssima leitora, ou leitor, ainda não percebeu que a nossa Maria da Graça vai parar ao alcouce, ao bordel, à casa das putas, ou como quer que lhe chamem, desilude-me profundamente. Ou não esteve com atenção à história, ou ainda não percebeu nada disto, ou – pior ainda – esteve a ler esta porcaria em diagonal à procura das partes pornográficas e está totalmente perdido na história.

 

Ignoremos os leitores que não tinham percebido. Esperemos que estes pudicamente fechem o livro, digam mal dele e vão fazer outra coisa.

 

Agora que o fizeram e estamos só nós, digam-me lá se a rapariga, com dezasseis anos por fazer, só com a quarta classe, tendo como única família um pai borrachão, uma filha bebé nos braços e como melhor amiga uma senhora por conta e antiga prostituta – diz-se -  tinha muitas outras hipóteses de fazer outra coisa.

 

Meu dito, meu feito. Rumou, pela mão da Júlia a um bordel nos arredores do Porto e foi apresentada à dona Rosete pelo que temos a nossa Maria da Graça, na flor dos seus quinze anos, com algumas estrias na barriga é certo e com uns bicos de mamas já nada virginais, a atender clientes na Rosete, aos viveiros da Pícua, ao fundo da avenida Afonso Henriques. Fez-se o negócio com a Júlia que lhe tomava conta da criança e tinha a mãe tempo para atender os clientes e descanso na segurança da filha.

Como mulher escrupulosa que era em termos de religião frequentava a igreja. Sabido, ou rosnado, o seu modo de vida – vida fácil diziam as beatas que nunca tinham alombado com quatro homens e malcheirosos na mesma tarde, ou se o tinham feito nos seus tempos graças a dezenas ou mesmo centenas de confissões já se encontravam limpas de tais pecados e mesmo absolvidas de tal memória – evitava as igrejas próximas. Frequentava a igreja do Bonfim. Aqui ninguém me conhece e não tem nada que falar.

 

The End

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