Capitulo 53

As patroas, como já era de esperar, mal a gravidez foi pública, notória, confessada e sem pai à vista que limpasse a coisa com um casamento despediram-na. - A sonsinha com aquele ar de quem não parte um prato e vai-se ver … Até a mãe entrevada comentou que no tempo dela não havia daquelas poucas-vergonhas e que já não havia criadas como antigamente e que desde que o senhor professor tinha morrido isto estava tudo perdido e que este Marcelo Caetano ia deixar os comunistas tomarem o poder ou que entregava tudo aos espanhóis. Para Maria da Graça não havia muitas soluções. Ir para casa do pai era o mesmo que dizer adeus aos cinco contos. Já estava a ver as notas trocadas por vinho nos diversos tascos. Isso é que não. Na rua também não podia ficar. Lembrou-se da Júlia. Antiga mulher da vida, dizia-se, agora por conta dum sujeito (bancário?) casado e que em nome da amizade que as unia e de uma nota de quinhentos escudos certamente a receberia. Pelo menos até a criança nascer. Depois se veria. Não sei francamente se foi a nota de quinhentos escudos, a amizade ou mesmo a solidariedade entre mulheres, e mulheres pobres, que foi decisivo na decisão de Júlia. O que é certo, e é facto, é que ela recebeu a grávida Maria da Graça, a nota de quinhentos escudos. Prudentemente Maria da Graça escondeu as nove notas restantes e só lhe falou de quatro. O tal sujeito que mantinha a Júlia aceitou a coisa de bom grado mas recusou liminarmente mexer uma palha para pressionar o pai da criança. Era gente importante e dali não levava ela nada. E ainda ia arranjar problemas para ele e para a Júlia. E logo com o chefe da policia ao barulho. Cruzes canhoto. Como a natureza tem de seguir o seu caminho inexorável a criança nasceu. Era menina, perfeitinha, mamava a horas certas e dava umas razoáveis boas noites. Para a boa continuação da história chega-nos saber que a criança nasceu, que Maria da Graça continua – para já – em casa da Júlia e que ainda restam umas notas de quinhentos escudos que nesta altura davam para bastante coisa. Temos portanto tempo para ir coscuvilhar a vida, os segredos e mesmo os pensamentos mais íntimos de outros personagens. Isto de contar histórias é uma espécie de coscuvilhice politicamente correcta e com a desculpa que é literatura e que é arte e essas coisas todas. Ora bolas. Está um pobre cristão, contribuinte, sossegado em sua casa a tentar levar a sua vidinha para a frente e vem um tarado qualquer tornar publica, e em letra de forma, a sua intimidade, os seus pecados, as suas misérias e glórias. Pior pecado ainda é o de quem lê. Voyeur da pior espécie que se delicia com as minúcias da vida alheia. Haja um Deus, ou vários, que nos absolvam. Coscuvilhemos então. Comecemos pela família do tal Raul. Acabou o curso, tinha-me esquecido de dizer que era primeiro anista de engenharia quando começou a sair com a Maria da Graça, embora tenha chumbado um ano. Também a meio do curso apanhou com a revolução em cima e fez-se militante dum partido de esquerda. Passou-lhe a paixão pela esquerda revolucionária e apaixonou-se pela heroína. Tempos maus aqueles. A propaganda oficial, herdada do estado novo agrupava as drogas todas no mesmo saco: Droga, loucura, morte. Começou por fumar erva e haxixe, passou ao LSD, conviveu com a heroína e lá ficou. Cocaína e anfetaminas poucas. Foi o calvário. Começou por controlar o vício: largo quando quiser. Passou a pedir mais dinheiro aos pais, depois aos amigos. Primeiros roubos e primeira desintoxicação. Voltou ao mesmo. Mais promessas, nova desintoxicação, desta vez na Suiça, lá fora é que sabem. Voltou, reincidiu. Canadá, mais desintoxicação, mais volta, recaída. Morre o pai e fica a mãe e a herança. Dois anos de calma. Destila a legitima em dois anos, volta para casa, mais desintoxicação, mais recaída. A mãe perde a paciência e vai para um lar. Vende a casa e, sabendo que está com uma doença degenerativa salvaguarda os bens. Alguns roubos, cadeia, desintoxicação, Magalhães Lemos, mais cadeia e por fim a rua. Acabou a arrumar carros. A memória da Maria da Graça aparecia-lhe como algo difuso e vago, entre a escola primária, o liceu, o primeiro ano da faculdade, por aí. Parecia-lhe sempre mais uma história que lhe tinham contado que algo de real passado com ele. Aliás como toda a sua vida passada. Fora com ele ou com outro? Bom. Agora tem é de se orientar para a dose. Quanto ao pai faleceu antes da ida de Raul para a rua. Derrame cerebral, paralisia do lado esquerdo, problemas na fala. Fisioterapia e outro ataque fulminante. Diga-se na verdade que tinha bastante peso a mais, tensão alta desde os quarenta, alguns diabetes, e que comia e bebia por três ou quatro. A mãe ainda é viva num lar de terceira idade na rua de Santos Pousada e sofre de demência e bruxismo. Ainda é viva. A mãe das patroas da Maria da Graça faleceu pouco depois da criança nascer, sem dor nem sofrimento durante o sono. Anos depois, muitos – já a filha da Maria da Graça tinha namorados – , uma das irmãs foi atropelada e morreu. A outra sobreviveu-lhe escassos meses. Habituada à companhia da outra durante uma vida inteira morreu, disseram no funeral, de saudades. Nunca mais naquela casa se falara da Maria da Graça a não ser para espicaçar a criada presente, comparando o seu mau trabalho com o excelente da Maria da Graça. Mais tarde a imagem mítica da Maria da Graça foi substituída pela da Maria do bigode, de Vila Meã, morta tragicamente por um eléctrico quando vinha dum recado.

The End

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