Capitulo 51

Amar, amar perdidamente e ser sol e lua e o caralho que me foda e a puta que me pariu e o caralho que foda estes gajos todos, e os poetas, e os músicos e a minha vizinha, e a vizinha dela e o caralho que me foda –e puta que pariu esta merda toda – e a minha mãe e a mãe dela e as manas Paula e Melo e o Chefe da policia e o meu namorado e o puto do 181 e o pai dele e a mãe dele e até a avó. E mais a puta que os pariu a todos e a tia deles e delas e da Josefina que comia o patrão e a patroa e do santeiro, e dos gatos do santeiro, e de toda a gente, puta que me pariu a mim, e à minha mãe e à mãe e avó dela e mesmo à bisavó, ou, como se diz cá no Porto – e sem mais arrazoados – Tou fodida!

Tou mais grávida que uma grávida e vou ser mãe. Foda-se! E sem pai da criança.

 

Acrescenta o autor, na mesma dinâmica: caralho, é fodido! Ou mesmo é refodido, se tal palavra existe no dicionário da gente culta e educada, que no da gente inculta e não educada há de certeza e até com graus maiores de falta de educação e de dinheiro para comprar fraldas, Cérélacs e tetinas e outros apetrechos necessários à criação, como cujo nome indica, dum criança.

 

Por muitos palavrões e impropérios que se digam, por mais pragas que se roguem, uma barriga – grávida – cresce sempre indiferente à palavra. No princípio era o verbo mas no fim de tudo é a barriga. E a crescer. E se o verbo era importante a barriga impõem-se. Como diria o Dr. Zoio, médico de atestados e de sopeiras e a fins, a natureza tem de seguir o seu curso. E neste caso seguiu.

Temos aqui o momento neo-realista, naturalista e realista. Como nos champôs anti caspa o três em um.

O chato é que a rapariga estava mesmo grávida, muito grávida, sem pai da cria e mais e o que é pior: solteira e sem cheta.

 

O que é de sobeja preocupação para pessoas com valores morais, e materiais, como o leitor ou eu.

 

Perdoem-se os palavrões do início do texto e vamos reescrever esta parte:

 

Ela amou-o e ele enganou-a. Soa melhor que vários palavrões. Ele dizia poesia – era estudante – e ela, quase analfabeta, mas gostava da poesia. Pensava ela que a desdita que lhe cabia, o ficar grávida, era hereditária, mas por falta de palavras adequadas insultava a sua ascendência. Não gostava das suas vizinhas e vizinhos.

 

Está de facto muito melhor e mais condizente com o que todos nós pensamos.

 

E com o que pensava a avó da cria., senhora com S muito grande: nada de relaxações ou poucas-vergonhas na sua família. Se a rapariga emprenhara era por única e exclusiva responsabilidade sua. Todos sabiam que a sua família era muito decente e que se tal acontecera nenhuma responsabilidade lhe podia ser assacada e muito menos ao filho, cujos ímpetos sexuais, como todos sabemos são, nos homens, absolutamente incontroláveis e não vinculam uma família de teres e haveres a misturar o seu sangue com esse tipo de gente para quem nenhuma religião fora feita, que procriam como animais, que não sabem comportar-se à mesa e, de não somenos importância, não tem quaisquer rendimentos ou heranças a receber. Isto na remota possibilidade da criança ser sua neta que com esta gente o mais provável é estarem a tentar sacar algum e a criança ser filha doutro degenerado que tal, senão mesmo dum familiar próximo, que é o mais comum em gente assim. Se ela está à espera de receber algum dinheiro disto bem pode tirar o cavalinho da chuva, ou como diz o Dr. Fuas com a sua imensa graça: o equídeo da pluviosidade. A família dela não vai sustentar prostitutas filhos das ditas nem vai aceitar nos seus salões esta gentalha só porque o filho teve um momento de fraqueza.

 

Deixemos a avó com o seu monólogo e vamos lá a ver que embrulhada foi esta. Há uma rapariga pobre e mal-educada grávida, um presumível pai da criança e, last but not least, uma criança.

 

A coisa foi assim:

 

Depois dos passeios no carro do tal Raul que culminaram numa ida várias vezes repetida ao monte da virgem e a várias hospedarias esconsas na cidade e arredores, numa noite em que as patroas não estavam porque a velhota entrevada tinha sido internada e ela se pisgara com ele para outra hospedaria esconsa, onde apanhara pulgas e chatos, de algumas ameaças das patroas para se portar bem ou rua -não que elas tivessem visto alguma coisa mas com o faro de mulheres velhas e sem homem já tinham de certeza topado – de algumas coisas que se rosnavam na rua, embora eles tivessem mil cuidados, a coisa estava a complicar-se.

 

Ela era a namorada dele, com um casamento em perspectiva e disso já tinha uma grande certeza. Não tinha sido, ainda, apresentada aos pais dele porque o momento não era o mais conveniente. Coisas de gente rica e endinheirada que ela não compreendia mas aceitava.

Quando a coisa estava no seu melhor o período não lhe veio. Estava atrasado?

Se calhar até era melhor assim. A coisa resolvia-se por si e estando grávida o casamento tinha de ser apressado para não dar azo a escândalo.

Assim seria e tudo acabava com a marcha nupcial não fora a cara de atrapalhado do Raul e a frase: temos de resolver isso, o momento não é oportuno.

 

Ora a nossa Maria da Graça podia ser quase analfabeta – tinha a quarta classe e mal amanhadota, chumbara uma vez na segunda e outra na quarta classe –, podia não conhecer muito mundo nem ser muito experiente das coisas da vida e da criação da mesma, nem possuía qualquer dom sobrenatural que lhe permitisse adivinhar o intimo das pessoas e os seus pensamentos mais escondidos, mas era mulher e o que é mais estava grávida. Esta conjugação de factores dava-lhe a clarividência para perceber duma vez só que a coisa estava negra.

 

Passemos a parte da discussão que ele teve com ela, das ameaças dela – sim porque sou menor – das desculpas dele e da discussão que ele teve com o pai e com a mãe. Queria dinheiro para ela fazer um aborto, um desmancho como se dizia na época, e a mãe estava renitente a dar. O pai, mais cordato e conhecedor do mundo, sugeriu que a levassem com uma senhora da confiança dele a uma parteira igualmente da sua confiança a fim de resolver a rapaziada do Raul sem que eles tivessem qualquer implicação. Diga-se de passagem que estes conhecimentos e confianças com abortadeiras e acompanhantes de raparigas que vão fazer desmanchos lhe custou várias discussões com a esposa, mulher por principio desconfiada, que terminaram com uma ameaça velada de dois estalos no focinho, da esposa que não dele, ameaça que terminou com a discussão que já se arrastava muito para além do que é razoável um pai de família ter de aturar.

O Raul ficou de castigo bastante tempo e perdeu o acesso ao carro do pai aos domingos à tarde. Ideia da mãe. O pai, lembrando-se dos seus tempos de rapaz, que também tinha feito algumas rapaziadas no tempo dele não conseguia repreender muito Raul e poderíamos dizer que até sentia algum orgulho no feito.

 

Os desmanchos, como agora a interrupção voluntária da gravidez, pressupõe além duma mulher grávida e com vontade de abortar, de alguém que faça o aborto e, naqueles tempos como hoje de dinheiro. Tudo isso parecia reunido só que entre a Maria da Graça constatar o atraso, a discussão entre eles, que ao contrário do que pode parecer no texto foi em vários capítulos, espassados de uma semana entre elas – a rapariga só podia sair ao domingo -  a decisão do Raul de falar com os pais, o contacto do pai com as tais pessoas da sua confiança e a entrevista com a parteira passou demasiado tempo.

A D. Alice foi clara e peremptória: já ninguém pega nisto. Ela já está para aí de seis meses. Agora é arranjar padrinho e que seja menina para não ir para a tropa.

 

O pai do Raul acabou por falar com a Maria da Graça e entre ameaças de toturia, prudentemente fora acompanhado dum policia amigo gentilmente cedido pelo chefe da policia, de argumentos de vária índole entre a ameaça e o ar paternal lá lhe deu cinco contos de reis, em notas de quinhentos escudos sob a promessa de silêncio. Não valia a pena estragar a vida dela e do pequeno.

 

Maria da Graça pegou nas notas e percebeu que estava fodida.

The End

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