Capitulo 50

Sou simples, mulher do povo sem grandes ambições, espero alguns filhos, um marido – se casado comigo tanto melhor – pouco bêbado, que me bata poucas vezes e que não gaste todo o dinheiro que ganhe nas putas, no vinho e no jogo. Só isso.

Filhos e filhas escorreitos, muitos, e que não vão logo presos aos doze ou catorze anos. Que nessa idade vai-se para a tutoraria. O pior é depois. Cadeia e da grossa e depois a gente é que paga. Com o corpo e o resto. Que com corpo bem se pode, mas com o resto é pior. O dinheirinho custa muito a ganhar e bem menos a gastar. Enfim por um filho gasta-se. Agora que custa, custa.

E os juízes e polícias saem caros. Eu não sei porque ainda não tive que pagar. A minha mãe que o diga. Coitada! Necessidades. Filhos, marido bêbado e pouco trabalhador, a vida complicada e é preciso a gente desenrascar-se. Ela desenrascou-se muitas vezes.

Coitada. Morreu entre a Corticeira e a casa Casais. O vinho e a aguardente não ajudaram mas o resto também não.

Foi mais o resto. Acho eu.

Eu não vou acabar assim. Vou lutar e vencer. Nem marido bêbado, nem rampa da corticeira, nem casa Casais, nem nada. Tudo certinho. Ai não se não vou.

Ou não me chame eu Maria da Graça.

Eu sei que só tenho catorze anos e que ainda não sei nada da vida. A mim parece-me fácil. Às velhas nem por isso. Eu acho que tenho razão. Afaste-me eu da casa Casais e do vinho, dos homens e do trabalho como o da minha mãe e posso ser tudo.

No fim de tudo só queria um homem e filhos que não fossem presos. Uma casa no bairro Herculano e uma televisão para ver o Zip-Zip em casa em casa e não no café, nem em casa das manas Paula e Melo, e comprar sugus e não andar a pedi-los ao sebento do sobrinho das manas que me apalpa toda para me dar a porcaria dum sugo.

Nem ter de ser simpática com ele para ir comer um bife a casa das tias e rir-me, e sorrir-me, para os gatos mijões e ver a tia aleijada e tratar bem a criada – como elas dizem de dentro – e rir-me para a cozinheira e aturar o puto, que não é mais que um puto, que me apalpa e me faz despir nas escadas e que algumas vezes me faz lambe-lo e chupa-lo porque diz que gosta de mim e que um dia vai casar comigo.

Eu leio o CORIN TELLADO e tudo e já vi romances melhores e foto novelas acabarem melhor.

Nã. Não me acredito que daqui vá acabar melhor, mas quem sabe? 

E os bifes são bons e o puto até não é tão chato assim.

 

Desta vez parece que tive sorte. Arranjei emprego de sopeira numa casa de duas senhoras velhotas com uma mãe mais velhota ainda e entravada. Parece que o serviço é pouco, a comida razoável e ainda pagam algum. Vamos lá a ver. Sempre é melhor que estar em casa a aturar as borracheiras do meu pai e a passar fome. Amanhã vou para lá.

 

E foi. Era uma casa decente, de facto o serviço não era muito e davam-lhe folga ao domingo.

 

Como a casa era na rua D.João IV bastava descer a dita rua e já se estava no jardim de S. Lázaro, passeio obrigatório de domingo para sopeiras, magalas e marçanos. Aí se travavam os conhecimentos e daí saíam casamentos, poucos, e filhos, muitos.

Era também couto de caça para filhos família, proxenetas à caça de novas protegidas e alguns homens casados em busca de aventuras.

 

O Jardim era-lhe familiar desde sempre. Nascida e criada nas Fontaínhas desde sempre os seus passeios passavam pelo jardim. Como invejava as mais velhas que namoravam e quantas vezes casavam de lá. Era miúda na altura mas agora já era grande que se fartava. Já podia ir para o jardim como criada de dentro, com uns brinquitos de ouro e tentar a sua sorte no mercado nupcial, escolhendo com critério, não se desgraçando com o primeiro desgraçado que lhe aparecesse, fazendo valer o diploma da quarta classe, os brincos de ouro e uma caixa de cartão com um enxoval ainda incipiente mas que com mais alguns anos de trabalho iria crescer. Rapidamente aprendeu a evitar os proxenetas e os homens casados. Nessa não caía ela.

 

Para não nos alongarmos mais, e como já se está a adivinhar um desfecho qualquer, resumamos a coisa dizendo que a aprendizagem que a levou a evitar os homens casados e os proxenetas não foi suficiente para evitar os filhos família, alguns com carro e tudo, que por lá apareciam. O dela chamava-se Raul como poderia chamar-se António ou Luís ou mesmo Francisco.

Conheceram-se ela ao principio não entrara no carro porque não era assim tão tola mas ao fim de algum tempo, aí umas duas horas, a curiosidade de entrar no carro, passear pela cidade e até, como as artistas de cinema, fumar um cigarro, foi mais forte.

Dessa primeira vez a coisa não passou duns beijos e abraços. Da segunda foram ao monte da virgem. Ele lá a tirou antes de se vir. Assim não havia problema.

The End

1 comment about this story Feed