Capitulo 40

As distâncias em africa não se medem em quilómetros nem em milhas. Medem-se em horas de avião ou dias de carro isto se houver caminho por onde um jeep possa passar ou pista para o avião aterrar. Se medíssemos a distância em quilómetros e em linha recta desde Luanda diríamos que o Eng. José Diamantino da Silva estava, mais ou menos e sem grande rigor, a cerca de trezentos quilómetros de Luanda. Só que não havia estrada ou caminho transitável para o local pelo que as deslocações só eram possíveis de avião. Felizmente havia uma superfície plana que servia perfeitamente de aeroporto improvisado. Enorme e desproporcional para a exiguidade das instalações e à importância da exploração, se assim se podia chamar a um buraco escavado no chão por 25 pretos trazidos de Luanda. Felizmente que alguns tinham experiência prévia nas minas de diamantes e mina é sempre mina, não importa o que de lá sai ou pode sair. Nesse dia o engenheiro olhava para o horizonte e estava a pensar que o sol ia pôr-se brevemente, mais uma hora, hora e meia no máximo e era noite e ia começar a orquestra da selva a tocar e os raios dos bichos que quanto mais pequenos são mais barulho fazem. E se eram venenosos? Isso sim! Desde plantas a animais, passando pelos frutos, insectos. Enfim! O fim do mundo. Uma prospecção não se sabe bem do quê, nos confins de África. Nada nas redondezas. Uma aldeia a meia hora de jeep com 150 ou duzentos habitantes e era tudo. Tinha que vir tudo de avião de Luanda. Os habitantes da aldeia vizinha eram de etnia diferente dos trabalhadores da mina, assim os contactos eram raros e pouco amistosos. Preferiam ficar nas instalações e só um uma vez um o acompanhara à aldeia. Não voltou. Descobriu depois que se acusavam mutuamente de praticar feitiçaria, canibalismo, incesto, envenenamento e outros crimes sortidos, mais ou menos graves, e de difícil prova. Também o Eng. José da Silva -embirrava solenemente desde pequeno com o nome Diamantino que a mãe pronunciava muito à Porto Diámántinoe - raramente ia à aldeia. Eram trinta a quarenta e cinco minutos de viagem por picada, sujeito aos riscos da selva, para encontrar uma aldeia suja de palhotas miseráveis, cheia de crianças cobertas de pó e sujidade, à mistura com porcos, galinhas e alguns cães. Eles comeriam os cães? Sempre achara que não mas com aquela gente nunca se sabia. A única razão que o levava à aldeia era a procura de uma pretita jovem, porque um homem – com mil diabos – é um homem seja em África ou na China. Embora não fosse intrinsecamente racista as africanas pouco lhe diziam sexualmente. Achava-as particularmente feias e temia as doenças venéreas. Contavam-se histórias pavorosas de galiqueiras galopantes que obrigavam ao corte do pénis isto se ele não caísse espontaneamente. Eram sobejamente conhecidas as histórias do soldado, amigo, dum amigo, dum amigo que antes de regressar ao continente saltara da amurada do Uíge para não ter de enfrentar o continente emasculado. Se calhar eram histórias, mas pelo sim pelo não escolhia-as sempre novinhas, impúberes se necessário fosse, mas virgens. Não lhe era difícil encontrar o que queria. Contratava a menina por uns tempos e levava-a com ele para a mina. Quando se fartava, o que normalmente ocorria ao fim de dois três meses, levava-a à aldeia e trocava por outra. Pensa que apenas uma ficou grávida. A ideia de levar a criança para a metrópole trespassou-lhe vagamente a consciência mas foi logo afastada pela imagem da mãe, das tias e do avô a verem-no entrar em casa com uma mulatita pela mão. Não sabe porque diabos sempre imaginou, que na possibilidade remota da gravidez ter existido e de se ter concluído, o fruto seria uma rapariga. E depois quando ela fosse espigadita ia comê-la? A ideia do incesto futuro aterrorizou-o e excitou-o ao mesmo tempo. Muito tempo de Africa, muitos livros pornográficos e demasiado contacto com os pretos. Afastou o pensamento e olhou para rádio. Era o único contacto com o mundo exterior e com brancos. Por ele reportava os avanços, e muitos recuos da obra, passava horas perdidas a falar com o capelão de Luanda e com alguns rádio amadores. Contacto pessoal com brancos só os do avião que levavam mantimentos e peças. As deslocações a Luanda eram espaçadas. Os superiores viam no buraco uma urgência danada e ele nunca percebera bem o objectivo. Enfim pagavam-lhe bem e isso bastava-lhe. Se as coisas continuassem assim voltava para a metrópole em três ou quatro anos com um pecúlio invejável e podia assentar de vez. Casar com uma rapariga que tivesse algo de seu, não fosse ela casar por interesse, e viver regaladamente. Sonhava vagamente com uma quinta, uma casa no Mindelo e um Jaguar E. A seu tempo. Agora tinha de se contentar com que tinha: uma pretita que mal falava português, a companhia dos pretos de Luanda, e o gira-discos. Rádio mal se conseguia captar e televisão nem sonhar. A pista improvisada era suficientemente grande para aterrarem cargueiros o que possibilitou o transporte do material necessário, jeep incluído, para a exploração. A natureza de africa nunca deixara de o surpreender: uma pista natural, com quilómetros de extensão bem orientada no que toca a ventos e obra, exclusiva da mãe natureza. Se fosse feita pela mão do homem não seria muito diferente. Em Africa há muitos mistérios e enigmas e não era ele que os ia decifrar. Limitava-se a usar o que a natureza lhe dava. Não ligava muito às superstições africanas e aos medos dos pretos. Quando chegaram os pretos apareceram-lhe de roldão no escritório a dizer que a pista estava minada. Um susto. Embora estivessem a quilómetros de parte nenhuma e a guerra, ou terrorismo, ou lá o que era, se passasse a dias de distância temeu pela sua segurança. Inspeccionada a pista nem sombra de minas ou armadilhas. Os pretos diziam-lhe que não crescia nada porque estava minada. Gente burra. As minas matam os homens e os animais mas não as plantas. Deus os livrasse de pisar uma mina. Estava farto das histórias de braços e pernas e testículos e pénis arrancados, esventrados e depois cortados por causa da porcaria das minas. Ali estavam a salvo disso. Não vivia ninguém perto, excepto na aldeia. Nem os terroristas se lembravam de tais cus de Judas. O preto entrou a correr no escritório sem bater à porta e começou a gritar qualquer coisa. O engenheiro pouco habituado a intrusões tão inesperadas ficou um longo momento a fitar o preto que trazia algo na mão. - Tas bêbado André? - Num está bêbado não os engenheiro: olha ! E mostrou-lhe um conjunto de pedras, mais propriamente cristais, mais ou menos com o tamanho de bolas de golfe. Uma ou duas eram bastante maiores e, depois de lhes pegar, sentiu que eram bastante pesadas. - São minerais e daí? - É diamante os engenheiro eu sei. Trabalhou nos africa de sul e nas Lundas. Sabe bem que é diamante. E são maningues…maningues! Olhou para os cristais e sorriu. Diamantes do tamanho de bolas de golfe e maiores e maningue deles….estava riquíssimo como Cresus…gente estúpida e ignorante. Vá lá a gente fiar-se neles. Uns cristais quaisquer e havia aquele rebuliço. De qualquer modo acompanhou o André para ver a origem das pedras. Quando voltou para o edifício não conseguia deixar de pensar no que vira. No buraco foram estavam centenas, ou mesmo milhares, de cristais empilhados por todos os lados. Pareciam que tinham sido colocados por mão humana. Ná ! Quem é que ia enterrar naquele fim de mundo toneladas de cristais? Bom! Diamantes não são de certeza. Seriam radioactivos? A atmosfera de África já o contaminara. A pista minada, a feitiçaria, os gritos das festas dos pretos deviam estar a afectar-lhe a capacidade de julgamento objectivo. Pensou nas festas dos pretos. A batucada toda a noite, tabaco, álcool – que só era permitido excepcionalmente – e o ar cansado dos trabalhadores no dia seguinte. Como era vida sexual deles sem mulheres? Iriam ao cu uns aos outros? Pouco lhe importava. Desde que fizessem o serviço. De qualquer modo tinha de relatar o facto. Ligou o rádio e tentou a chefia de Luanda. Nada. Ninguém lhe respondia. Entretanto chamou-o o capelão. Riram-se imenso com a história dos diamantes do tamanho de bolas de futebol. Consegui finalmente a ligação à chefia. Não deram importância ao caso. O chefe parecia estar com pressa e desligou o rádio. O engenheiro desligou o rádio e começou a fazer o relatório da actividade diária: data, material recolhido, horas de trabalho, doenças, acidentes, etc. e etc. Uma burocracia danada. Terminado o relatório foi ao frigorífico, tirou uma cerveja e começou a ver uma das pedras ao acaso. Como não tinha nada mesmo que fazer começou a medir o volume na pedra utilizando o método de Arquimedes. Depois pesou-a e chegou a um peso específico de 3,6. Imaginou qual seria o peso específico do diamante. Deveria ser muito maior. O ouro se bem se lembrava era de 19,3. Ora o diamante deveria ser muito mais pesado. Era a substância mais dura da natureza. Riscava todos e não era riscado por nenhum, como aprendera no Liceu. Parecia-lhe que a unidade de dureza era a tabela Mohs, ou uma coisa parecida mas não tinha a certeza. Por pura diversão aproximou-se da janela para riscar o vidro com a pedra. Foi nesse momento que viu o avião a fazer-se à pista. Pousou a pedra e espantou-se com a possibilidade do avião ir aterrar quase de noite na pista sem iluminação. Estariam com problemas? Correu para o rádio, ligou-o na frequência dos aviões e chamou o avião. Nada. Parecia que o rádio estava avariado. Também agora não havia mais necessidade do rádio. O avião tinha aterrado. Correu para a pista e quando lá chegou já tinham saído dez homens, vestidos à civil, mas com armas à cintura. O que parecia o chefe acenou-lhe de longe, sorriu e aproximando-se tratou-o pelo nome. - Ora viva engenheiro José da Silva. Não esperava hoje reabastecimento, pois não? Nem nós pensávamos cá vir hoje mas esta porcaria tem um problema qualquer e tivemos de aterrar aqui. O seu rádio está avariado? Tentamos contacta-lo e nada. A surpresa inicial foi vencida por este homem – civil? Militar? – O conhecer pelo nome. Bom, de facto não devia haver muitos engenheiros a viverem isolados e com um campo de aviação privado. Certamente contactaram Luanda estes indicaram-lhe o local e certamente o nome dele. Mistério esclarecido. Tinha era dúvidas se tinha comida e cerveja para aquela gente toda, que pelos vistos, ia ficar ali até arranjarem o avião. Quem dá o que tem a mais não é obrigado e começou a calcular mentalmente quantas garrafas de cerveja Cuca e Vat 69 tinha. Apresentaram-se e o recém-chegado confirmara as suas suspeitas. Tinha tido uma avaria em pleno voo e Luanda informara-os da existência da pista. Estavam preocupados por não terem conseguido contactá-lo para ele mandar colocar as lamparinas de querosene indispensáveis para uma aterragem nocturna. Felizmente tinham conseguido chegar de dia. Depois de umas ordens rápidas mandou o técnico de comunicações arranjar o rádio que tanta falta lhes podia ter feito. - E também aqui neste fim do mundo sem rádio um homem está perdido, não é amigo? Convidou-o para um whisky e começou a desculpar-se pela quantidade insuficiente de bebidas que tinha para tantos homens, que afinal bem mereciam uns copos valentes depois dum cagaço daqueles. O recém chegado disse-lhe para não se preocupar que já tinha contactado Luanda e que iam enviar a todo o momento um avião com as peças necessárias para o avião e que junto das peças vinham umas caixitas de boa água da Escócia e alguns litros de cerveja – importada, nada da Cuf – para o amigo engenheiro. Pedia-lhe assim que mobilizasse os trabalhadores para colocarem luzes na pista. Eles por acaso vinham de Moçambique e traziam luzes de emergência para um aeroporto em Benguela. Era realmente o dia de sorte deles, não é verdade? José estava contente com a surpresa. Alguém branco com quem conversar. Estava falador. Contara a história dos diamantes do tamanho de bolas de golfe e mostrara-lhos. Riram-se os dois e o recém-chegado confirmou-lhe que sim que o peso específico do diamante, como se trata da substância mais dura da natureza, tem um peso específico bastante elevado. Não se recordava se 28 ou 30. Pouco importava agora. José serviu-se de mais um whisky e sentia a cabeça ligeiramente a andar à roda. Pudera. Uma cerveja e dois whiskys antes do jantar. Antes que pudesse falar de jantar viu, pela janela, as luzes dum avião. Parece que chegou a cavalaria, não é? O recém-chegado propôs-lhe irem esperar o avião à pista. Foram. Os trabalhadores estavam reunidos, fora do terreno da pista e o recém-chegado perguntou a José se estavam ali todos. Ele contou-os e disse que sim. - Tem a certeza? Claro que sim. São vinte e cinco e estão aqui todos. Ora conte-os. - Só queria saber se havia malandros que não vieram ajudar. O engenheiro olhou para a pista e viu as luzes que se estendiam parecia até ao infinito. - Olhe cá! Os seus homens não exageraram nas luzes? Parece que vai aterrar um jacto. Riram-se os dois com a imagem dum jacto repleto de mulheres bonitas aterrar naquele cu de Judas…havia de ser bonito. O avião aproximava-se da pista e parecia grande enorme mesmo. - Desculpe lá que raio de avião é este? Parece tão grande. O recém-chegado sorriu para o engenheiro e disse-lhe: - É um Antonov An-22. Tem cerca de sessenta metros de comprimento e pode transportar até 100 toneladas de carga de cada vez. E tem um alcance de 11.000 quilómetros. Impressionante, não é? A cabeça começava a doer-lhe e perguntava a si mesmo Antonov não era nome de avião russo. Nesse momento o avião fez-se à pista e via-se claramente, na traseira, a sigla CCCP e a bandeira soviética. - Sossegue engenheiro. Não vamos invadir Angola ao lado dos russos. Dito isto pegou firmemente no braço do engenheiro. Gritou qualquer coisa para os homens dele que se encontravam ao lado dos trabalhadores e guiou o engenheiro para o escritório. Estava renitente. Havia algo de errado, muito errado. O álcool, junto com o cansaço não o deixavam raciocinar direito. As pernas tremiam-lhe e foi a grande custo que se consegui sentar numa cadeira. Pareceu-lhe ouvir o disparo, ao longe, de armas automáticas, mas o barulho do Antonov abafava o ruído. - Pode explicar-me o que se passa? Foram interrompidos pela entrada dum homem que fazendo continência disse ao recém-chegado: - Ordem cumprida meu Capitão? - Capitão? Você é militar? O recém-chegado deu ordem ao soldado para esperar fora da sala, sorriu ao engenheiro e perguntou-lhe se não o achava com cara de Capitão. O engenheiro calou-se e fixava-o nos olhos. O capitão pegou na arma disparou dois tiros na cabeça do Engenheiro. Ficaram dois buracos pequenos. Um no meio da testa e o outro um pouco abaixo do olho esquerdo, A parte de trás da cabeça desaparecera e pintara a parede de vermelho. O capitão levantou-se e recolheu apressadamente as pedras, excepto a que estava junto à janela e escondeu-as na roupa. Dirigiu-se à porta e disse ao soldado que o esperava: - Eram vinte e cinco? - Sim meu capitão, contei-os eu. - Há uma aldeia próxima. Não estava nos planos. Trate disso. - Sim, meu capitão. Voltou à sala. Passou pelo cadáver do engenheiro, dirigiu-se à mesa e viu as anotações do dia. Terminavam com o nome completo, não a assinatura ou rubrica como seria de esperar, e a data do dia. O capitão leu em voz alta: Angola, 24 de Abril de 1974, José da Silva, Eng

The End

1 comment about this story Feed