Capitulo 36

Não pensemos que desde ida a Paris à morte, depois de gasto o dinheiro no Casino do Estoril foi um processo tão rápido como o voltar duma página. A vida, ao contrário dos romances de terceira, ou primeira, categoria é muito mais lenta.

Salvo os acidentes abruptos em que o nos apontam uma arma, dizem algo que não chegamos a ouvir, salta um projéctil que nos escangalha os miolos, seguido de inconsciência total e definitiva ou o do carro que nos trucida na passadeira, depois de vermos conscienciosamente quem vem da esquerda ou da direita. Isto é excepcional. A vida real, sem romancista por de trás, é muito mais dura.

 

António Manuel não foi uma vítima rápida e fulminante da incerteza da vida. É certo que despertou em Paris para prazeres proibidos e, continuo-os em Lisboa. É certo que poderia ter continuado, sem que nada ou ninguém o tivesse chateado, mas convenhamos que abusou.

Vamos ver como:

Abusou do álcool,

Item do jogo,

Descurou o ganhar a massa.

 

Esta conjugação é terrível. Podem-se ter os maus hábitos – leia-se vícios - que se tiverem desde que se possa pagar, ninguém nos obsta, agora sem dinheiro…

 

Talvez o único vício que nunca se possa pagar é o jogo. Por mais dinheiro que se tenha mais a roleta demanda. Todos os outros, ganhe-se bem, podem-se pagar.

 

Conheceu, entre Paris e a rua Melo e Sousa e o enfarte, o nosso António Manuel muita gente. Pederastas, jogadores, mulherengos, bêbados…enfim…de tudo.

 

Tendo em conta que morreu, e aos mortos nada se nega, deixemo-lo falar agora que está à direita de Deus Pai todo-poderoso. À Direita porque, pelo que nos conste, à esquerda não se encontra ninguém. Coisa do Altíssimo que a nós, mero escrevinhador, não nos apetece discutir. É à direita e lá estão.

 

Contarnos-ia ele que a primeira vez que foi ao jardim do Jerónimos foi por acaso. Estava emocionado pela ponte sobre o Tejo em construção. Sabemos que é verdade e deixemo-lo continuar.

Que o primeiro miúdo foi o recordar do que se passou em Paris. Não temos a certeza de ser verdade, mas que é possível.

 

O resto foi acaso. E isto conto eu. Por um acaso do destino da primeira vez que saiu com um rapazito em Lisboa, na volta, ganhou no casino, e a coisa saiu-lhe bem.

 

Da segunda vez não sabemos com certeza se ganhou ou perdeu no casino, mas o homem da hospedaria já era mais afável e dava-lhe confiança e que, daí, não haveria problema. Para aí à décima vez já conhecia, pelo menos de vista, colegas – digamos assim – de caça aos menores. Conversa vai, conversa vem. Algum conhecimento e, conhecimento dos meandros para quem tem dinheiro e vontade.

 

Meninos e meninas muito jovens, as fontes, os meios, quem traz e onde.

 

Pensará o leitor mais jovem, ou o mais velho mas ingénuo, que os circuitos de menores, de ambos os sexos, em Portugal, nos anos sessenta, setenta ou até oitenta, ou mesmo noventa se resumiam aos Ballet Rose, a um ou outro caso mais menos escondido ou esconso. Enfim…a epifenómenos duma prostituição adulta e voluntária.

 

Pela nossa Maria da Graça sabemos, de fonte certa, que não era assim. Começara a dita a trabalhar na Rosete aos catorze. Quase quinze, é certo, e já mãe de filha.

 

No bas-fond a coisa começava muito antes. Era comum as meninas de oito ou nove anos masturbarem adultos, vide o Pessoa, e, não tendo pai ou mãe que as protegesse, caírem na prostituição dura e pura em idades que agora consideramos de criminosas. Crime havia, mas não dos clientes, mas sim delas.

Era assim. Os miúdos, sem pai que vociferasse, eram também aceitáveis como prostitutos. A culpa nunca era dos clientes. Era deles.

 

Sabemos, de fonte fidedigna, que a libido dos homens, mesmo que por meninos, é incontrolável e capaz de tudo. Compete aos meninos, e meninas, garantirem o seu pudor e virgindade. È duro mas é assim, Se fazem, essas porcarias, mesmo aparentemente contrariados fazem-no porque querem. E mais, tem prazer nisso. È sabedoria das nações. Por quanto as meninas, e maxime os meninos, das famílias possuem um horror atávico ao sexo contra-natura, com pessoas do mesmo sexo, com pessoas de classes inferiores e em grupo –fora da sua classe – ou doutra forma contrária à boas regras e normas que regem uma sociedade organizada.

Que é mau abusar sexualmente da filha da vizinha do primeiro esquerdo todos concordamos. Ir ao cu, digamo-lo vulgarmente, ao puto do segundo esquerdo é igualmente, senão pior, crime.

Agora à filha de ninguém, ao filho de ninguém…bolas….se ninguém se preocupa vamos nós?

Não sejamos mais papistas que o Papa. O mundo é o que o que é e, que assim seja, quem fez o mundo foi Deus.

 

Também com a fome que grassa aí o que é abrir as pernas em troco de comida? Valha-nos Deus e um burro aos coices. Comida é comida e não há nada que o valha. Se ainda fossem filhos ou filhas famílias. Ora bolas. Tretas, e de comunas, é o que é.

 

Porque diabos é que as raparigas, ou rapazes, vão reclamar? Se não for eu é outro, se não o outro aqueloutro. Vão casar as raparigas no altar com flor de laranjeira?

Vai ser o miúdo um futuro Dr. tantos de tal que afiança nunca ter levado no cu? Nem eu…ora porra…quanto mais eles e ainda por cima eles.

Haja juízo, bom senso e cuidado no que se faz.

 

Eu sei que já não serei vivo quando se julgarem estas coisas. Já estarei morto, cadáver, e conto que ninguém ira revelar coisas que noutras épocas parecerão chocantes. É assim a vida. Era assim. E assim será. Quanto tens quanto vales. O resto é treta. Mudam-se as regras e os locais, mas estou convencido –deixa-se-me o autor falar – e poderia eu continuar.

 

O autor não deixa. Tumba com o António Manuel e dê-mos aqui um ar politicamente correcto. Ora bolas. Isto daqui a pouco desancava na actualidade com tanta sem vergonhice como no antigamente. Há segredos que devem ser resguardados, como diria o pai do padre Orandino, das massas. Agora, graças a Deus muitas, não as há, pelo menos que se saiba. È boa a democracia.

The End

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