Capitulo 23

A vida de Luís e Maria dos Remédios, ambos Boa Morte, uma por casamento e o outro por nascimento decorria pacatamente. Escola, casa, passeio com a mãe ao fim da tarde para um, casa, compras na baixa, devidamente acompanhada pela criada, para outra. O pai de vez em quando lá aparecia. Demorava-se sempre pouco. No entanto as visitas alegravam a casa. Podemos dizer que foi uma época feliz para todos. Não faltava dinheiro nem saúde, se Maria dos Remédios durante as longas ausências do marido fantasiou com outros homens não o sabemos. Sabemos sim é que nunca foi visto homem a rondar-lhe a porta ou os passeios com o filho ou com a criada e que a única carta com aspecto de missiva amorosa que lhe foi enviada durante estes anos foi devolvida ao remetente, fechada, e sem qualquer comentário. De vez em quando telefonava às irmãs e enviava regularmente dinheiro para o Brasil para a mãe que parecia não ter vontade nenhuma de voltar para Portugal. Escrevia-lhe regularmente e a mãe respondia-lhe. Promessas vagas de visitas breves mas nunca cumpridas. Luís acabara por se entrosar bem com os colegas, acabara a quarta classe e já frequentava o ciclo preparatório. Era um aluno regular, nem bom, nem mau, e já tinha por essa altura bastante sotaque do Porto e, a uma distância prudente da mãe, utilizava certeiramente o calão do Porto. As relações de Maria dos Remédios eram pouquíssimas. Dava-se irregularmente com duas senhoras solteironas, mais velhas, vizinhas de rua que tinham um sobrinho da idade do Luís e que frequentava a mesma escola primária e com uma senhora viúva dum juiz, sem filhos, que vivia na mesma rua. Diga-se de passagem que tais relações eram esporádicas e maior parte das vezes, para não dizer sempre, porque as vizinhas enviavam a criada a convidá-la: As senhoras mandam dizer que era para vir lá tomar um chá, Que sim que vou. As visitas do marido eram espassadas mas regulares. Digamos que vinha seis ou sete vezes por ano, demorava-se normalmente uma semana. Raramente esteve mais de dois meses sem vir. A maior parte das vezes avisava com algum tempo de antecedência mas por vezes vinha sem qualquer aviso prévio. O carro do exército, um Mercedes preto, trazia-o à porta e o impedido e outros militares carregavam para casa lagostas, bebidas, frutas tropicais, goibada, chocolates suíços e um sem número de coisas então caras e de difícil acesso. Sempre trazia uma jóia, cara e boa, para a Maria do Remédios e brinquedos ingleses para o Luís. Sempre que chegava, depois de beijar mulher e filho, de contar algumas anedotas e depois da saída do impedido e dos militares fechava-se no escritório. O escritório era um santuário em que Maria dos Remédios, o Luís e as criadas, mesmo na ausência do patrão evitavam entrar. Faziam a limpeza o mais rapidamente possível, sempre na presença de Maria dos remédios que, após as limpezas trancava a porta e guardava a chave no seu quarto. Ela própria não ia lá fora dessas ocasiões. Nesse dia chegara sem pré aviso, sem Mercedes e sem impedidos. Batera à porta, mesmo tendo a chave de sua casa, subira a escadas a correr. Beijou a mulher e o filho e, caso único e sem precedentes, não cumprimentou as criadas. Entregou um embrulho ao filho, dos dois que carregava, e disse a Maria do Remédios: Anda para o escritório, Vou buscar a chave, Não precisas que eu tenho aqui uma. Entraram. Ele teve dificuldade em meter a chave na fechadura foi ela que abriu a porta. Disse-lhe, enquanto abria o cofre: - Vamos ter de partir já. Pega no miúdo, deixa o dinheiro destes envelopes às sopeiras e não tragas nada. Elas que só o vejam amanhã. Vem com a roupa que tens vestida e o miúdo que se despache. Não digas nada. Deixa o dinheiro às raparigas, que te serviram, neste envelope. Para a velhota tenho este. Que só os vejam amanhã de manhã não te esqueças. - E roupa e jóias, e os brinquedos do Luís, e os livros dele? - O que conseguires meter na carteira em cinco minutos. Nem mais um segundo. E caluda. Maria dos Remédios saiu do escritório, amedrontada mas suficientemente consciente que algo de muito grava se passava. Foi ao quarto e carregou a carteira com todas as jóias que podia. Algumas fotografias. Partiu os passpartout para tirar algumas. Juntou alguns cremes. Teve de trocar espaço na carteira de jóias por cremes. Coisas de mulheres. Colocou os envelopes na cama e foi falar com o Luís. Que vamos ali e vimos já e o menino tem de vir connosco. È um instante. E para as sopeiras: Nós hoje não dormimos, que vamos a uma festa e que não podemos dormir. E que está um envelope com ordens para ti Maria na minha cama, para ti Rosa na cama do menino. Para ti Vicenta no escritório, com a condição de ninguém abrir os envelopes antes de amanha ao meio-dia. Posso confiar Vicenta? Que sim, sinhora , que pode. Boa Vicenta. Antes morrer que deixar abrir os envelopes. Lembrou-se das jóias sobejantes: Vicenta, Sim sinhora ? Tudo o que estiver no meu quarto é teu. Num diz isso que parece que vai morrer, Hoje não mas um dia e tu também, Quanto mais tarde melhor, Mas lembra-te: do meu quarto é tudo teu. Vicenta compreendeu que nunca mais veria Maria dos Remédios. Maria dos Remédios sentia, sabia, que nunca voltaria aquela casa e que tudo o que lá ficara nunca mais lhe diria respeito. Lembrava-se do pai, da morte do pai. Desta vez ia ser diferente. Nem venda da casa nem fuga da mãe para o Brasil. Iria para melhor de certeza. Não eram passados os cinco minutos e já Maria dos Remédios estava com Luís pela mão no escritório. Estamos prontos. Eu também. Saiu ele com uma mala, parecia de viagem, com a mulher e o filho pelas escadas abaixo. Antes de abrir a porta disse-lhes: Vou buscar o carro. Esperem e deixem a porta fechada. Voltou minutos depois, abriu a porta, discretamente colocou a mala na bagageira do carro e partiram. Subiram a rua das Fontaínhas e foram estrada fora. Rapidamente Luís, no banco de trás do Citroen Diane adormeceu. Quando Maria dos Remédios o viu adormecido falou pela primeira vez: - Onde vamos? Pela primeira vez na vida o marido de Maria do Remédios ia falar com ela acerca do seu emprego. Ela própria não sabia muito bem o que ele fazia no exército. Sabia que viajava pela colónias, que devia ser importante o que fazia e pouco mais. Ele nunca tocava no assunto. Desta vez falou. - Desculpa esta confusão mas temos de partir. Está a avançar uma revolução em Lisboa que vai acabar com o regime. Não sabemos muito bem em que vai resultar. A situação não se aguenta, duvidamos mesmo que alguém saia a defender o palerma do Marcelo. A Pide ainda falou que seriam um ultras do regime a dar o golpe mas a informação que temos é que são capitães e outros oficiais de baixa patente. Muito serão comunistas. Se isto vai dar em revolução comunista ou em guerra civil não o sabemos. Nós vamos fugir com outras pessoas de muita confiança. Podes ter a certeza que temos muito mais que suficiente para vivermos mil anos sem nos preocuparmos com dinheiro. Para já vamos sair do país antes que as coisas piorem. Vamos até Espanha. Daí para um pais sossegado. No trajecto do Porto para a fronteira Espanhola de Tui o carro parou algumas vezes. Uma para irem ao quarto de banho, e as outras porque estavam carros, com o que pareciam famílias inteiras dentro, à espera deles. A partir de Viana não voltaram a parar. O comboio era de dez automóveis. Na fronteira ultrapassaram os carros todos, dirigiram-se ao chefe da fronteira e identificaram-se. Passaram sem mais. Em Espanha esperava-os um carro preto com quatro homens dentro. Um guarda civil mandou-os passar. Seguiram o carro preto até a uma casa na praia de Samil.

The End

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