Capitulo 20

Chamar-se Joaquim Boa Morte, ter sotaque diferente, oito anos, ter vindo transferido de Lourenço Marques a meio do ano lectivo não é propriamente o melhor curriculum para ser bem integrado socialmente na escola primária da Sé, à rua do Sol, entre filhos de classe média portuense – uma minoria – e rapazes de classe baixa duma das zonas mais pobres da cidade – a imensa maioria. No entanto o Joaquim tinha-se entrosado bastante bem com os colegas e já convidara alguns para ir a sua casa. E tinham ido e tinham-no convidado também. Joaquim vivia com a mãe na rua das Fontaínhas numa casa de três andares e águas furtadas com duas criadas trazidas recentemente da província, de terras com nomes esquisitos como Guilhufe ou Vila Meã, uma criada trazida na bagagem de Lourenço Marques a Sofia, que já estava com eles antes do seu nascimento, dois gatos pequenos e, last but not least, a sua mãe D. Maria dos Remédios, Boa Morte por casamento. A D. Maria dos Remédios tinha casado há dez anos com o então Alferes Joaquim Boa Morte, em Lisboa, partira com ele para Lourenço Marques onde fixaram residência. Dois anos depois nascera Joaquim. O já então Capitão Boa Morte deslocava-se frequentemente a outras províncias ultramarinas e ao continente. Isto não significava que se dessem mal. O seu trabalho a isso o obrigava e D. Maria dos Remédios entendia perfeitamente. Filha de pai médico habituara-se desde pequena a jantar com a mãe e os irmãos porque o pai estava a tratar dos doí-doí dos doentinhos, como dizia o seu irmão Filipe. Fora apressada a vinda dela com o filho e a Sofia para o continente. Joaquim avisara-a que tinha de partir rapidamente e que brevemente se lhe juntaria. Habituada aos costumes militares do marido nem lhe ocorreu perguntar porque não a avisara antes pelo correio ou por telefone. De qualquer modo o Capitão Joaquim tratara de tudo e ela pouco mais teve de fazer que as suas malas e dar algumas ordens, um pouco desordenadas, aos eficientes impedidos e militares que empacotavam a mobília com ordem e muito cuidado. Nada se partira na viagem. À chegada ao Porto outros militares montaram a mobília, pintaram a casa e colocaram papel nas paredes. O fogão Leão, a GazCidla já trabalhava na cozinha e tudo estava no seu lugar 24 horas depois da chegada. D. Maria dos Remédios perguntara aos homens como era possível a mobília ter chegado ao mesmo tempo que eles: o barco não demora não sei quanto tempo? A isso eles não sabiam responder. Pouco importava. Se a mobília viera de barco, avião ou mesmo às costas de pretos era-lhe indiferente. Estava lá e o que é mais: inteira e sem faltas ou avarias. Estava habituada a não fazer perguntas e a obedecer. Desde pequena. Desde muito pequena em São Pedro do Estoril, na casa grande onde nascera, juntamente com os irmãos. O pai, médico de profissão, costumava chegar tarde a casa. A ver os doentinhos. Lérias, rosnava a Vicenta, criada mais velha que o tempo e que sempre vivera com elas. - Jogo e mulheres menina, e vinho! Mas cala-te boca que as paredes têm ouvidos. A mãe impunha um respeito reverencial à Vicenta e a outro pessoal doméstico que vinha e ia. - Putas é do que ele gosta menina. E de jogar. Não sei como a mamã o aguenta. Mas cala-te boca! E Maria dos remédios calava e não fazia perguntas. Muito menos à mamã. Um dia o pai fora trazido a casa por dois polícias. Um acidente de carro, felizmente sem gravidade, mas o carro totalmente destruído. Tremeu. O Jaguar destruído a caminho de Sintra, ou de Lisboa? - Foram os credores menina. Qual acidente? Não viu que tinha um olho negro? Aquilo foi é pancada. E da grossa. A mãe nunca disse nada. Só uma vez deixou escapar: - Antes fossem putas. Mais nada.

The End

1 comment about this story Feed