Capitulo 5

O que parecia o chefe começou a explicar, mais em pormenor, o que se passava.

 

Uns documentos e uns testemunhos, que por razões de estado não podia revelar, indicavam, com um grande grau de certeza que os fundos do Ultramar, história mal contada do regime anterior ao vinte e cinco de Abril e pior depois. Histórias entrecortadas e cruzadas, mas com o seu quê de verdade, sugeriam que uma quantia equivalente às reservas de ouro actuais estava desaparecida, guardada a sete chaves num cofre, ou vários, de Suiça, ou noutro local qualquer. Claro que uma coisa assim, a ser verdade merecia uma investigação tão discreta quanto possível. O grupo de trabalho era heterogéneo, é facto, mas de pessoas da maior confiança, capazes de guardar o sigilo e a discrição necessária quanto ao assunto.

Havia muitos descrentes na veracidade da história mas…

O senhor presidente da república sem querer envolver-se directamente pediu-me que lhe pedisse que nos ajudasse numa investigação tão espinhosa. O senhor primeiro-ministro concordou e manda-lhe cumprimentos.

 

Isto dito quase de um fôlego e com uma voz nervosa.

 

Orandino aceitou os cumprimentos de quem nunca tinha conhecido pessoalmente, e voltou a pensar que não tinham almoçado. Que raio de embrulhada. O que é que eu tenho a ver com isto?

 

O tal chefe continuou:

 

Umas das figuras chave do caso parece ser o Eng.º José Diamantino da Silva, ora o meu amigo parece ter sido um dos poucos amigos deles. Talvez nos possa contar alguma coisa que possa ser relevante para a investigação.

 

É extraordinário como no segundo, ou mesmo fracção de segundo anterior a um acidente, ou numa situação de choque, conseguimos reviver histórias completas que normalmente demorariam minutos a recordar. Nestes momentos parece que os neurónios e axónios, como que possessos, fazem ligações mais rápidas e eficientes e nos permitem reviver num segundo anos de vida ou uma vida inteira.

 

Fosse o choque das revelações, os cumprimentos presidências ou mesmo a falta de almoço o factor desencadeante do flash back Orandino recordou ou que já não recordava há anos, e tudo em poucos segundos.

 

Um engenheiro que conhecera em Luanda, que trabalhava numa mina, não se recordava, ou nunca soubera bem de quê nos confins da mata. Conversas que tiveram em Luanda. Sempre que o eng. ia a Luanda procurava-o. Conversas tidas, até altas horas da manhã pelo rádio. Algumas cartas trocadas. As do eng. longas, de muitas páginas mesmo. Considerava o eng um tipo simpático mas um bocado chato. Era verdade que não lia, normalmente, as cartas até ao fim. Também o pobre de Cristo desterrado ali nos cus de Judas não tinha mais que fazer que escrever cartas. Depois a morte num ataque dos terroristas, pelos vistos depois de ter falado com ele no rádio. Dizia-se que mutilado. Os poucos haveres salvos do ataque terrorista enviados ao padre. Tinha dito a alguém que no caso de lhe acontecer alguma coisa queria que entregassem as suas coisas ao Padre Orandino. No meio das coisas havia uma espécie de testamento que pedia ao padre para ajudar a mãe na habilitação da herança, o número da conta e a quantia lá depositada. Os livros e o resto das coisas para o padre. Parece que a mãe era o único familiar vivo que tinha e, quando Orandino a foi ajudar a receber a herança já a senhora se tinha mudado para um talhão no cemitério do Prado do Repouso. Não consegui localizar mais parentes vivos. Lembrou-se subitamente: as histórias das meninas pretas contou-mas em segredo de confissão ou depois dumas cervejas? Na dúvida não conto.

 

Com excepção das pretitas e omitindo o considerar o eng um bocadito chato contou tudo.

 

- Tem as cartas do engenheiro?

 

Possivelmente sim. Trinta anos são muitos dias. Lembrava-se dum caixote de madeira com livros, cartas, uns discos de vinil…Que não estavam perdidos não estavam…agora onde!

 

- E pensa que os poderá encontrar?

 

Que sim, que era uma questão de procurar. Em sua casa?, Sim, estarão por lá, Podemos ir lá agora? Agora? Sim é muito importante, Então vamos.

 

E foram, diga-se de passagem sem almoçar, no mesmo carro em que vieram, com o outro carro atrás e ainda mais outro. Este outro era um BMW preto. O tal homem acompanhava-o no banco de trás e pediu desculpa, por no meio desta confusão ainda não se ter apresentado. A via verde voltou a dar amarelo mas desta vez sem comentários. Desta vez viu bem a placa e viu que era Anais. Lembrou-se das expressões de Maria da Graça e fez um trocadilho, bastante brejeiro diga-se, no que respeita aquela embrulhada toda.

 

A mais de duzentos na auto-estrada e tendo faróis azuis para espantar automobilistas e policias, chega-se ao Porto num instante. Há no entanto tempo para conversas. Disse ao padre Orandino que a história dos fundos do ultramar lhe pareciam patranha da grossa, ou a não o ser, história, ou antes, estória antiga. E que se tais fundos tinham sido desviados, facto tido mais ou menos como certo, a sua recuperação seria tão distante como a volta do D. Sebastião, mesmo em manhã solarenta. No entanto, os mais altos influentes da nação pareciam convencidos que onde há fumo há fogo. E que o fumo dali parecia sinal indiciário e claro de algum lume. Não para ele.

Quem manda pode. Ele cumpria ordens.

Chegados a casa e ao fim de alguma procura no sótão, por detrás duma montanha de roupa antiga, discos antigos, sapatos, caixas de sapatos, livros, mais caixas, objectos inqualificáveis, de uma panóplia de artigos típicos de sótão de casa de homem que não tem mulher que o obrigue a fazer limpezas regulares e possa fazer chantagem : ou arrumas as tralhas ou não há nada para ninguém. Aí cede-se. Deitam-se fora os cromos da nossa juventude, as sapatilhas com que marcamos o golo….e aínda por cima temos de fazer a separação do lixo.

Orandino reflectiu na sabedoria da santa madre igreja que impedindo um padre de ter mulher lhe possibilita manter até velho as recordações de infância. Não se pode ter tudo. Ou recordações ou mulher.

Sim, que uma empregada, ou criada ou governanta não detêm o poder ultimo, absoluto, de fechar, ou abrir, as pernas para conseguir os objectivos.

 

Mal sabe o padre Orandino, e já dissemos que neste romance não há grandes surpresas, que, mais capitulo menos capitulo, soçobrará aos prazeres da carne e já em idade em que tais prazeres deveriam ser substituídos por visitas ao médico, fisioterapia ou recolhimento em termas. É o que dá uma vida saudável.

Voltemos ao que interessa.

Estamos em casa de Orandino, mais precisamente no sótão, entre a tal panóplia de objectos a caixa do amigo de Angola é encontrada. Aberta.

Está cá tudo que estava? Sim, abri a caixa para tirar umas coisas minhas que vinham juntas e não me lembro de ver o que lá estava, Podemos levar a caixa? Sim, Obrigado e desculpe o incómodo. Tem a aqui o meu cartão e qualquer coisa que precise…,Obrigado, Quanto a isto nem uma palavra, confiamos em si, como no segredo da confissão, Pode ir descansado.

 

Foi tudo muito rápido. Os homens saíram e Orandino ficou em casa, esbulhado dum baú cujo conteúdo francamente nunca lhe tinha interessado muito, e, isso é que é grave, sem almoçar quase às quatro da tarde. Sentia-se excitado e com vontade de partilhar a experiência com alguém. Não que a fosse contar toda. Bolas um segredo é um segredo e se isto era importante para o estado, a César o que é de César, não ia contar, mas apetecia-lhe comer alguma coisa e falar. A única pessoa que lhe ocorreu foi a Maria da Graça. Ora bolas, porque não?

 

Telefonou-lhe.

The End

1 comment about this story Feed