Capitulo 3

Isto de ser padre tem que se lhe diga. A confissão não é fácil. Por muito que nos preparem no seminário, por muito que nos digam que nos vamos habituar e que ao fim duns anos vamos achar tudo normal e corriqueiro estamos sempre a admirar-nos e a ter dúvidas. Houve-se cada coisa. Mesmo ao fim de tantos anos de sacerdócio, de ter sido capelão em Angola durante a guerra colonial, dos horrores que se ouvem na confissão, que se vêem fazer, e até que se fazem, de ouvir incestos, orgias, violações, roubos, sacanagens, deslealdades e tudo, tudo o que é possível nada parece impossível ser feito por um ser humano. Sempre se intrigara Orandino porque o Senhor tinha destruído tão violentamente Sodoma e Gomorra. Que teriam eles feito que ele próprio não tivesse ouvido…enfim…são insondáveis os caminhos do Senhor. E no entanto tão estimulante e reconfortante a atitude das pessoas. Lembrava-se muitas vezes do que lhe contara um oficial de Moçambique, promovido mais tarde a General. A coisa fora assim; um Régulo cujas ligações à Frelimo eram certas, ou mais que certas assegurava a Pide, fora capturada com mulheres e filhos. A soldadesca queria matá-los a todos, sem julgamento, e no acto. Fora isto no princípio da guerra colonial e as decapitações e violações da UPA estavam mais que frescas, e aumentadas, na memória de todos. Régulo, mulheres e meninos. Alguns que ainda não andavam. O oficial tivera de usar toda a sua dialéctica, e principalmente a G3, para lhes explicar, mostrando, que qualquer tentativa, mesmo ténue, de matar o turra ou a família teria consequências, nomeadamente a título póstumo, depois duma rajada certeira. Acrescemos que o graduado era conhecido pela pontaria certeira. Acatou-o a massa, olhando para a G3.

No caminho para o quartel onde o alegado terrorista, e família, iam ser presos, os militares foram comer. Os mesmos perguntaram ao oficial se podiam dar de comer aos miúdos, pelo menos, esses não tem culpa. Pouco depois às mulheres e, por fim, ao Régulo. Pensava esse oficial que no fim da viagem se alguém quisesse julgar o Régulo, sem as garantias legais, e falasse em tortura teria os mesmos soldados que o queriam trucidar, juntamente com mulheres e filhos e filhas a dar própria vida para o defender.

Era isto que achava dos homens e mulheres. Todos aproveitáveis e apenas reprováveis quando as circunstancias o ditavam. À imagem e semelhança Dele. Pensamento pecaminoso, dizemos nós, porque os homens que deram de comer ao Régulo, e família, se bem que não constituída de acordo com os moldes Cristãos – vide a poligamia – parecem à Sua imagem e semelhança, mas que, impiedosos antes, não nos parecem imagem – mesmo que mal focada do Criador. Não somo teólogos, pelo que nos calamos.

 

Havia, é claro, paroquianos que lhe caiam no goto. Mesmo alguns que só conhecia da missa e da confissão, com quem trocara escassíssimas palavras, mas por quem nutria uma natural predilecção. Não que isso o levasse a julgar mais levianamente ou a condescender fosse com o que fosse. Tinha era, e cada vez mais com o passar dos anos dificuldade em julgar, em perceber o que era certo e o que era errado.

Tinha-se afeiçoado, sem qualquer pensamento de pecado – e pode invocar o autor destas linhas, que todos os pensamentos dos personagens conhece, como testemunha – por uma tal Maria da Graça, mãe solteira na adolescência que escolhera a igreja do Bonfim para evitar más línguas, embora lá não morasse, e que mesmo depois das diversas mudanças de residência, e de padre, continuava fiel à igreja do Bonfim, e pensava o Padre Orandino – e com razão, posso eu dizê-lo – porque entre os dois se criara uma amizade e, porque não, uma cumplicidade.

Se procuram nesta relação uma versão revista e melhorada do padre Amaro esqueçam. A relação não era erótica mas de cumplicidade. Fora do confessionário pouquíssimas foram as palavras que trocaram. Dentro do confessionário … confessava-se. No entanto a forma como a confissão era feita, os quês e porquês, os apartes as meias palavras levavam a um entendimento mútuo. Maria da Graça respeitava e ouvia Orandino, Orandino ouvia e respeitava Maria da Graça.  Não obstante as diferenças de idade e os trajectos de vida tão diferentes Orandino e Maria da Graça admiravam-se mutuamente.

Por vezes, e de uma forma inteligentemente subtil pediam um ao outro conselho e, igualmente e subtilmente, recebiam-no.

Talvez cientes dos que os dividia – e isto é especulação minha gratuita – nunca tiveram, pelos menos nesta fase da história um relacionamento mais íntimo. Se se desejavam? É possível e até provável. Eram um homem e uma mulher e até atractivos. Se tal ocorreu nunca o manifestaram.

 

Estava Orandino a pensar nestas e noutras coisas quando os quatro homens se aproximaram.

 

- Padre Orandino ? Precisamos de falar consigo, disse o que parecia ser o chefe. São militares de certeza. Este tipo não me engana.

 

Desta frase e deste pensamento a estar num Lancia K a caminho sabe Deus de onde com dois tipos no banco da frente, os outros foram no outro carro, igual ao primeiro, a mais de duzentos na auto-estrada para Braga e a explicarem-lhe que lá o senhor padre vai perceber tudo e que só pedimos a sua colaboração. E que isto não demora mais do que um instante, vai ver. O outro acrescentou por amor de Deus, mas com pouca convicção.

 

Tinha ido e pronto. Também eles foram convincentes. Credenciais do estado, assunto de estado, urgência, o primeiro-ministro, o presidente da Republica. Parecia uma brincadeira parva mas tinha o seu quê de sério. E, cá entre nós, quem é que ia inventar uma brincadeira assim parva, ou um rapto, com um padre sexagenário. Isto agora as televisões fazem cada uma…o que pensaria a Maria da Graça disto?

 

Nestes pensamentos perdera o fio à meada à viagem e já não sabia muito bem onde estava. Também as auto-estradas agora confundem tudo. Antigamente guiava-se à vista por locais agora por placas. Era Anais que dizia aquela? Não tinha a certeza e de qualquer modo já a tinha passado. Sorriu-se à ideia de terem um acidente e morrerem todos em Anais. Dava uma notícia porreira. Padre e dois amigos morrem em Anais.

 

Os carros saíram da auto-estrada. O condutor comentou: deu outra vez amarelo a puta da via verde! O paneleiro do economato está fodido comigo. Um dia vem a policia e prende-nos por não termos pago a via-verde. O do lado, olhando para trás, pediu desculpa: o senhor padre desculpe a linguagem do meu colega…

- Qual o quê somos todos homens…

- Ainda por cima da sua idade…

- O senhor padre desculpe, titubeou o condutor.

 

Diga-se em boa verdade que a referencia à idade fez, mas apenas mentalmente, insultar a mãe, a tia, a avó e todos os ascendentes do pendura. Em boa verdade, se diga também, se arrependeu de imediato o nosso bom padre.

 

Finda uma estrada principal, uma secundária, uma ainda mais secundária, e – como é da praxe nestas coisas – virando à sua direita, numa cortada à esquerda – e não tem nada que enganar – pararam em frente a um portão duma casa de construção relativamente recente (anos cinquenta? Sessenta? Setenta no máximo.). O condutor ligou o telemóvel, esperou que o atendessem e disse, o que parecia ser a senha: - abre essa merda pá, somos nós, ou esperavas pela Angelina Jolie ?

 

O portão abriu-se e os carros entraram. A casa era bastante grande, de arquitectura mais do que duvidosa. Casa de novo-rico de certeza mas antiguita. Apostava aí nos anos setenta ou oitenta. Não faltava a piscina com ar mais do que abandonado, umas esculturas horripilosas nos jardins e claro os leões a guardarem a propriedade privada.

 

O pendura abriu-lhe a porta pressuroso e rodeado pelos homens entrou na casa. Tudo muito cerimonioso. O senhor padre faça favor, por aqui se não se importa, queira ter o incómodo. Um até o tratou por sua santidade. Não corrigiu. Também achou que ele não ia compreender.

 

A sala era grande e cheia de sofás de couro. Sentara-se. A Casa cheirava a casa fechada. Marcas de humidade nas paredes. Não eram marcas de exterior. Parecia marca de ressoado de casa fechada. Começava a impacientar-se. Brincadeira, rapto, violação por extraterrestres ou fosse o que fosse ou começava ou iam almoçar.

 

Entraram na sala vários homens e os que o tinham acompanhado saíram de imediato fechando as três portas da sala. Orandino reconheceu vagamente alguns como figuras de segundo plano dos diversos partidos políticos, ou da televisão. Não tinha a certeza de quem eram mas que eram bastante conhecidos. Focando melhor começou a conhecer alguns e a nomeá-los mentalmente. Este é o…

 

Foi interrompido nos seus pensamentos pelo que parecia o lieder – quem era ele afinal? Isto de não comprar o Expresso – é o que dá!

 

- Caríssimo padre Orandino. Desculpe termos interrompido o seu muito trabalho mas se o fazemos é porque o interesse nacional está em jogo. E de que maneira. Como vê pelas pessoas aqui reunidas o que nos leva a, entre aspas, raptá-lo, do seu trabalho de pastor, é do mais subido interesse nacional.

 

Orandino começava a reconhecê-los. De vários partidos, organizações patronais, sindicatos, sei lá! Opus Dei, maçonaria? Mas tudo figuras segundas ou terceiras ou mesmo quartas. Não tinha de haver engano. Estava a confundir.

Bem lhe dizia a Maria da Graça que ler a Caras fazia bem à alma. E agora, se calhar, ao corpo. Jurou a si mesmo começar a comprar o Expresso e ver pelo menos um noticiário por dia.

The End

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