Romance incompleto e sem nome

Capitulo 1

 

A Igreja Paroquial do Bonfim é dedicada ao Senhor do Bonfim e da Boa Morte. Foi construída entre 1874 e 1894 tendo sido o arquitecto José Geraldo da Silva Sardinha. No mesmo local existia antes uma capela do século anterior. A actual escadaria era ainda da capela original. Teria sido construída entre 1805 e 1813.

A arquitectura exterior da Igreja reveste certa grandiosidade de proporções, não obstante a singeleza decorativa. Apresenta duas torres sineiras laterais de 42 metros de altura. O seu frontão triangular possui por cima a estátua da Fé.

O seu interior é simples, mas bem dimensionado. O retábulo foi pintado por Júlio Costa, em estilo neoclássico, com um painel a representar o Calvário.

Apresenta a sobreposição de dois pisos, no primeiro dos quais se abrem uma porta e duas janelas de arcos planos, separados por pilastras toscanas; sobre os arcos vêem-se castelos - o central com a legenda DOMINO IESU DICATA, os laterais com legendas bíblicas: NON EST HIC ALIND NISI DOMUS DEI, ET PORTA COELI e CANTATE DOMINO CANTICUM NOVUM, QUIA MIRABILIA FECIT, respectivamente do lado esquerdo e direito. Apresenta também as datas da bênção (20-8-1882) e acabamento (19-8-1894)

O interior do templo é simples, mas proporcionado. Nave coberta por abóbada de tijolo, suportada por três arcos firmados em pilastras jónicas. Suporta o coro um arco elíptico. A capela-mor tem abóbada ornamentada com estuques. O retábulo, de gosto neoclássico, tem painel que representa o Calvário e foi pintado por Júlio Costa.

O padre da Igreja Paroquial do Bonfim é Orandino da Silva. Homem robusto, de sessenta e quatro anos, que rege a paróquia há mais de vinte anos. Anteriormente, logo após o seminário e a ordenação, esteve em África, nas então Províncias Ultramarinas. Como membro do clero era capelão. Gozava de boa reputação entre os soldados sendo estimado por todos. Era homem de trato fácil, educado e decidido embora de poucas falas. Pouco depois do vinte e cinco da Abril retornara a Portugal. Veio para o Bonfim em 1980. Nesta freguesia granjeou rapidamente a simpatia geral. Talvez devido ao seu feitio reservado tinha muito poucos amigos íntimos, era conhecido por todos, e não tinha nenhum inimigo.

 

Naquela manhã de Novembro a missa matinal estava pouco concorrida. Os poucos fiéis, na sua maioria – para não dizer a totalidade – ocupavam os bancos das primeiras filas e dois ou três filas do meio. Respondiam maquinalmente. O Padre Orandino talvez contagiado pela indiferença do público, talvez pelo mau tempo que se fazia sentir sentia-se extremamente fatigado.

Quando se preparava para ler a Epístola de S. Paulo aos Coríntios reparou que estavam quatro homens de pé ao fundo da Igreja. Devido à distância não os podia ver bem mas tinha a certeza absoluta que nunca os tinha visto na sua Igreja. Vestidos discretamente de fato escuro e gravata, e de gabardina. Parecia-lhe que usavam auriculares e algo parecido com um telefone.

 

Estranhou não os ter visto entrar e, disso tinha a certeza absoluta, não estavam lá quando a missa começara. Era um acto reflexo: antes de começar a missa contava mentalmente as pessoas. E aqueles quatro não estavam lá.

Esta descoberta excitou a curiosidade do padre.

Quando a missa terminou os quatro aproximaram-se do altar. Vistos mais de perto via-se bem que eram muito bem constituídos, com roupa boa mas discreta e todos de botas. Também com a chuva que estava que está não há sapatos que aguente, pensou Orandino.

A forma como andavam em grupo, e esses tiques conhecia-os o padre muito bem, era inequivocamente militar ou pelo menos paramilitar.

 

 

 

 

The End

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