Disparates sortidos

António Barrotemos Cardoso Dias, também conhecido pelo ábêcêdê pelos amigos mais íntimos, era o que podemos chamar de bom rapaz. Filho de família humilde mas honesta, numa altura difícil de Portugal e do mundo, portava-se razoavelmente bem, respeitava pai e mãe, era estudante sofrível –nunca concluiu o antigo quinto ano do liceu, actual nono – mas não faltava por aí à lem ás aulas e a era respeitador de professores, contínuos e colegas rapazes do liceu. Das raparigas não sabemos, até porque a escola não era mista, e nesses tempos o contacto durante a adolescência entre rapazes e raparigas era limitado ao mínimo estritamente necessário ao saberem que existia algo como o sexo diferente e que tal existia. Era informação mais que suficiente e necessária à formação dum adulto saudável. As práticas sexuais, especialmente ou melhor especificamente nos rapazes, esperavam pelo casamento sendo substituídas até essa data por uma ida ou outra às mulheres de vida fácil. Visitas espaçadas e, se bem que toleradas, de caracter mais que sigilosas.

O nosso António não saiu da média, moda ou mesmo mediana, tendo em conta a época e o extracto social em que se inseria. Lá cumpriu o seu tributo a Vénus numa hospedaria esconsa na rua da Madeira, na cidade do Porto, com uma meretriz de idade indefinida, peso acima do bom senso e outros defeitos que a seguir se relatarão. Passados os dias regulamentares lá se dirigiu o rapaz à farmácia do Toninho da Reboleira para remediar o mal feito. Antibiótico e bastante sublimado para o esquentamento e um pó bastante desagradável ao cheiro para os chatos. A reacção se Wasserman deu negativo pelo que se livrou dum tratamento mais chato à sífilis. 

Quanto à pega lá continuou os seus dias de labor tendo morrido pelos idos de 1987, não de doença vergonhosa, mas atropelada por um camião conduzido por um espanhol, por acaso bêbado, que acabou – à falta de álcool teste na altura – por ser ilibado de qualquer crime por a dita vitima, já com algumas dificuldades na vista e com hábitos de beber vinho e outras bebidas mais fortes, ter atravessado a estrada fora da passadeira, que por acaso nem existia, e ser mulher de condição duvidosa. 
Na nossa modesta opinião não era duvidosa a sua profissão mas antes certa, sendo certo que a certeza ou duvida da profissão da defunta não deveria ter importância no ocorrido. Antes nos parece importante saber se a mesma e o tal camionista estavam ou não mais bêbados que um guarda fiscal, cujos à época eram conhecidos pelas monumentais bebedeiras que contraiam para guardar com mais ardor o fisco. Do facto nada sabemos pelo que mentalmente pedimos a deus, que tudo pode, que absolva a pecadora e já que agora o motorista do camião do qual nada mais sabemos.

Continuemos com o ábêcêdê, e penso que agora já o podemos tratar assim, que afinal é o herói da história e é a ele que se deve o relato.

Esquentamento tratado e curado, sem recidivas, lá continuou a vida do rapaz sem mais tributos de maior a Vénus. Poderíamos relatar um acaso erótico com uma vizinha casada uma noite de S.João anos depois. Este caso conta-se numa penada e não é de molde a excitar por aí alem o leitor habituado a relatos gráficos e, até , obscenos dos dias de hoje. O primeiro, com a tal vizinha casada resume-se a uns bilhetes e olhares trocados e a um beijo, de língua é certo, numas escadas dum prédio, aliás duma prima dela, e dum apalpar de mamas e do passar da mão – dela- por um segundo pelo pénis erecto dele. Pénis que sempre se conservou no aconchego das roupas assim como as mamas da senhora. O episódio do S.João das Fontainhas também não foi por aí alem. Noite de S. João, folia, alhos porros, pouco martelos que ainda eram novidade. No meio da folia uma escada aparentemente vazias e uma Jacinta que se preparava para lhe tributar Vénus, Valeram à decência umas velhas que quando a dita Jacinta já tinha as cuecas tiradas e aqui já ele tinha o pénis de fora chamaram gente e no meio da confusão apareceram familiares próximos da dita Jacinta que a vararam de estalos e impropérios. Safou-se o rapaz sem marca alguma no corpo e , o que é mais, sem forma dos façanhudos familiares chegarem a ele


Como se vê nada de especial.

À parte estes incidentes pouco mais havia a relatar. Nada de brincadeiras com amigos, embora instado por alguns mais dados a prazer levianos e pecaminosos. Punheta muito pouca e com regra. Sabia bem o nosso ábêcêdê os perigos que daí advém. Abstia-se o mais que podia só cedendo à tentação quando já não podia mais. Há, é certo, uma semana em que tendo conseguido uma revista em língua muito esquisita e com algumas fotografias, a preto e branco e de muito má qualidade, dumas mamas teve alguns excessos eróticos tendo esgalhado o pessegueiro inúmeras vezes ao dia. Acabou a brincadeira quando a mãe, ó vergonha das vergonhas, lhe apreendeu a revista e o pai lhe fez uma dissertação sobre os perigos inumeráveis e mais que certos do vicio solitário e do fim triste e inglório que iria ter com os pulmões dilacerados e as mãos cobertas de pelos.

Há mais um episódio que se pode contar mas que também não é excitante por ai alem : era num urinol público, eram de metal e bastante comuns na altura e , tendo ábêcêdê aí uns 14 anos, estando a aliviar a bexiga no urinol da praça da Batalha, um homem mais velho, aproximou-se e mostrou-lhe a as partes. Perguntou se ele já se realizava e começou a mexer-lhe. Paralisado nos primeiros segundos o nosso moço desatou a fugir pela rua de Santo António abaixo só parando junto da estátua do D. Pedro e ainda de braguilha aberta. Teve outras propostas mas sempre as rechaçou.

Abreviemos a coisa até ao primeiro emprego e primeiro namoro sério. Era o emprego numa companhia de navegação ao Infante. Emprego de futuro e bem remunerado. A namorada era de família conhecida. Virgem, séria, boa dona de casa e sofrivelmente bonita para ser tudo o anterior sem aqueles laivos sensuais que possam fazer um futuro marido e pai dos filhos temer ou suspeitar da probidade da futura mulher e futura mãe dos filhos. 

Algumas vezes tentou a sua (dela) virtude criando situações em que a seguro tentava consumar a coisa, o acto, mesmo até ao fim. Ela sempre resistiu facultando-lhe apenas a mamas desnudas para ele beijou cerca de dois meses antes do casamento. È certo que o masturbou com as mãos dela mas isso foi apenas uma semana antes do casamento. Este pudor e continência, que tanto convém a uma mulher decente, deram a certeza ao nosso António que estava a fazer a escolha correcta e que, como disse aos amigos mais íntimos: - ela não é uma dessas que fodem com todas. A rapariga é séria. Para foder a gente tem quem quer. Mulheres assim há poucas!

Saltemos o casamento e os anos posteriores. Basta saber que nasceram crianças –três- e que o emprego na companhia de navegação há muito que tinha sido trocado pelo de ajudante de despachante, num despachante bastante velho, que , tendo morrido, passou a banca ao nosso António. Na véspera dos seus cinquenta anos estava rico, com boa saúde e rodeado de amigos.

Apresentemos agora os amigos do António:

Eram gente de boa índole, negociantes, despachantes, funcionários superiores da alfândega. Alguns advogados e juizes. Todos com boa posição na vida. Não eram como o nosso António tão contidos na sua sexualidade. Desde há anos a esta parte o ábêcêdê conhecia-lhes as histórias em pormenor. Noite após noite contavam as aventuras nos bordeis. Conhecia, sem nunca os ter acompanhado, apenas pelos relatos, a cor das camisas de noite que as meninas usavam, os mais ínfimos pormenores da decoração da casa, os cheiros, os vícios, o tocar da campainha, a voz de falsete da madame. Enfim sem nunca os ter acompanhado em tais vidas tudo lhe era familiar como se fora um habitué de tais ambientes. 

Não o era de facto Em todos os anos de casamento nada há a assinalar na sua vida de casado. O mais que podemos dizer é que uma vez, e quando duma gravidez de sua esposa, viu as pernas roliças duma criada de dentro – uma moça roliça de santo Tirso, que estava ajoelhada esfregar o chão- e passaram-lhe tais pensamentos pela cabeça e , em rigor da verdade tamanho tesão dentro das calças, que teve de sair de casa para refrescar as ideias. Passou-lhe pelas cabeça penetrar a primeira prostituta que encontrasse, com ou sem risco de galiqueira e arriscando uma nova visita ao Toninho da Reboleira mas tudo isto se desvaneceu quando encontrou os Osórios, marido mulher e filhos, a descerem a rua e estiveram a conversar um bocado. Encontro salutar que impediu, ab ovo, o primeiro e único pensamento adulterino consistente.

Voltemos às vésperas dos cinquenta anos do ábêcêdê porque é isso que nos interessa. 
Já sabemos que o nosso bom homem foi fiel mas tem a imaginação inflamada pelos relatos gráficos dos diversos amigos. 

Não podemos dizer que esteja rico mas para os padrões da altura está muito bem. Tem casa, aliás casas, própria e casa de férias no Mindelo. Possui uma quinta no Minho, promissórias e um prédio arrendado em propriedade horizontal, na rua da alegria. Acresce a isto uma colecção de libras e meias libras, muitas pratas e acções que a este ritmo vão valer para cima dum dinheirão nos anos que seguirão. O rendimento mensal é bom e nada indica que vá descer senão subir.
A filha está casada com um engenheiro e espera um bebé. O filho mais novo está com ele no escritório, tal como ele não tem muita memória para grandes estudos, e o mais velho está em Coimbra a estudar para doutor.

Começa a perguntar a si próprio se já não é tempo de dar a si próprio, pelo menos uma vez na vida, uma prenda. Uma extravagância que seja uma vez na vida. 

Ora é sabido que quando tempos estes pensamentos o diabo ajuda-nos a cair na nossa própria tentação. Quanto mais o pensava mais lhe parecia razoável, realizável e desejável.

Assim foi a tentação: sabedor do local, do toque que teria que se dar à porta, e do que lhe iria aparecer, até nos mais ínfimos pormenores, como os cheiros, os range range dos soalhos, a cor das roupas das cama, a marca do sabonete, as abluções que seriam feitas , antes e depois do acto vergonhoso e até os pormenores do acto vergonhoso em si.

Nos próximos episódios se saberá o que aconteceu.

The End

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