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Amanheceresmature

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Não quero comer mais Nestum! - gritou, levantando todo o corpo num repente, braço esquerdo a mandar o candeeiro da mesinha de cabeceira ao chão. Subitamente, deu por si no quarto, em segurança. Suspirou de alívio, coçando as olheiras e procurando, ainda meio às cegas, o maço de cigarros. Desistiu e deixou-se cair uma vez mais, tapando a cara com a almofada. Este amanhecer sabia-lhe a hálito velho. A língua teimava em não descolar do palato, uma espécie de gosma semi-solidificada prendia-lhe os maxilares. Ficou ali um pouco mais, experimentando morrer. Não podia com a cabeça. Como é normal nestas situações, algo acontece que retira o cérebro da penumbra de uma forma estridente. Por conveniência do autor, decide-se que o súbito flash que lhe estremece o cérebro de forma dolorosa é provocado pelo toque do telefone. Ele tenta resistir tapando os ouvidos com a almofada, atitude inglória, já que o telefone não está para desistir tão facilmente. Resolve levantar-se e arrasta-se quarto fora pensando que, de uma vez por todas, terá que comprar um aparelho para o quarto.Estou?, disse para o microfone. Escutou um estalido do outro lado. Tinha chegado mesmo na altura em que, fosse quem fosse, tinha desligado. Azar o dele, pensou, que pagou a chamada na mesma. O tabaco estava ali, na mesa da sala, junto ao cinzeiro de vidro sepultado numa pirâmide de beatas. Tirou um cigarro, sentou-se, acendeu-o e inalou profundamente. O ataque de tosse que se seguiu teve proporções épicas. Esta manhã não era, decididamente, um bom início de vida. O telefone recomeçou o seu lamento intermitente, ele levantou-se, tossindo baba e ranho, enfiando com o dedo do pé no pé da mesa, assim de esguelha, da forma que mais dói. Foda-se!, berrou, iniciando um curioso ballet ao pé-coxinho em torno da mesa, até se afundar no cadeirão a seu lado, pegando, por fim, no auscultador. Está lá?, disse numa voz meia esganiçada pela dor. Manel?, perguntaram do outro lado, sem lhe dar o direito de resposta. O que estás a fazer em casa? Sabes que horas são? Manel pegou no comando do televisor e sintonizou um canal noticioso. O cantinho inferior direito dizia-lhe que em Amsterdão o tempo iria estar cinzento e que seria aconselhável usar roupa quente, e que por cá, no luso burgo, eram nove horas e trinta e dois minutos. Ainda assim, demorou uns bons cinco segundos a ter a reacção habitual, começando então a sucessão de Foda-se!encavalitados uns nos outros, a um ritmo cada vez mais frenético e com durações cada vez mais curtas, até ao paroxismo final, um valente Foda-se! mais alongado e audível, este dado já na casa de banho, enquanto o auscultador do telefone pendia, balançando junto ao chão, dizendo as suas últimas palavras: Miguel?... Miguel?... Está?... Miguel?...

Se esta história fosse um filme, esta seria a altura de mostrar Miguel no banho, dorso arqueado e mãos a suportar o corpo contra a parede, deixando a água tépida cair-lhe sobre o corpo, num plano picado e descendente. Seguidamente, os espectadores teriam a oportunidade de mastigar umas quantas pipocas vendo um grande plano de pequeninos pedaços de papel higiénico estrategicamente colocados na face de Miguel, tingindo-se lentamente de vermelho. Por fim, teríamos uma panorâmica do quarto, até encontrar Miguel frente ao espelho, de fato vestido, dando um último retoque ao cabelo, e inspeccionando a qualidade do escanhoamento da barbela e do queixo, seus pontos fracos da rotina matinal. Mas esta história não é um filme, e poucas possibilidades tem de vir a sê-lo. Por isso, é dever do autor dar sentido a algumas coisas durante este processo, de forma a esclarecer os presumíveis leitores desta farsa. Mesmo assim, façam de conta que estão a ver o filme e que uma alma desgarrada aparece em voz-off, que provavelmente a coisa fica mais divertida.

 

  • Cenas do próximo capítulo da série: (Voz-off do fulano do canal História) Miguel pensa acerca dos dias anteriores e recorda a noite passada, ainda na casa de banho. Miguel veste-se e sai para a rua. Antes de sair, Miguel dá de caras com algo que o faz tomar uma decisão desde sempre adiada. Miguel agora sai mesmo para a rua e espera um táxi. Entretanto, aparece Laura. E a história adensa-se.
 
The End
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semiose_net Esta história irá ganhar uma vida própria. Simplesmente não há sinopse: é uma história condenada ao fracasso e provavelmente acabou mesmo antes de começar.
Gosto de humor e dinamismo. Ritmo. Se esta história fosse um filme, seria realizado pelos irmãos Cohen.
As possíveis contribuições poderão ser publicadas no blog semiose.net, em http://semiose.net/tag/amanheceres.
Abraços!

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